O meu 25 de Abril (Parte 1)
O meu 25 de Abril foi gasto como de costume, nas horas do costume, fazendo as coisinhas do costume. Ainda vi na TVI uma pivot encartada de burra tropeçar no que estava a dizer e falar da Grândola Vila Moranga (!(, que logo emendou, graças ao Senhor.) Também vi muitas comemorações com um certo cheiro a bafio e desafio, demasiado saudosistas como se falássemos daquele bacano que há-se chegar numa manhã de nevoeiro para nos salvar. Admiro esta gente que vai para as manifes, de cravo, raiva e desencanto na mão. Eu não vou porque não posso e também porque, tanto quanto me lembro, nunca fui a uma única manif. São precisas? São. Fazem muito jeito às TVs que que lhes alimentam as reportagens? Fazem. Têm um cero sabor a raiva domesticada? Têm. Os governantes, sejam eles quem forem, levam-nas a sério? Não.
O meu 25 de Abril fi-lo à minha maneira, a única que melhor sei: escrevendo. Esta é minha lita anti. Anti o que quizerem. Porque se as palavras e as manifes são levadas pelos sete ventos, desejo que aquilo que eu e outros (principalmente os outros) escrevemos , perdurem e deixem um lastro de inquietação. Os bons livros não salvam ninguém, não fazem baixar a taxa de desemprego, nem os altos índices de corrupção, nem rega-bofe de uma Assembleia da República e um governo que impõem cortes drásticos menos a eles mesmos. No meu queijo ninguém toca!
O meu 25 de Abril foi assim, deixando escrito algumas linhas de inquietação e lucidez. Os meus livros (pricipalmnete dos outros) não vão salvar a humanidade mas pelo menos que a sua leitura torne o leitor mais consciente, atento e crítico. E participativo (que não seja apenas em manifes).
sábado, 26 de abril de 2014
sábado, 19 de abril de 2014
O Portugalzinho
Não queria Portugal assim, pobrezito, entristecito, labedor das suas feriditas, assustadito, soltando para os ar os seus aisitos.
Não queria Portugal assim, alienadozito, embaladito nos progamitas da TVzita, gentinha menorzinha feita famosita pela nossa alienaçãozita, pelo nosso futebolito, pelo Ronaldito madrilenozito, pelo fadito lisbpetita, pelo facebuquito.
Não queria Portugal assim, remordiditnho e ressaibiadinho, atirando para cima dos outros as suas próprias culpazinhas, no temorzito de que vacile o seu egozinho.
Não queria Portugal assim, carregado de saudadezinha e poetazinhos, ignorantezinho, lírico e misticizinho, mais crente na senhora de fatimazinha do que na sua vontadezinha nacional.
Estou no restaurante, chamo o empregado para pagar. Ele aproxima e sussurra:
- É a contazinha?
Confirmo com um sinal de cabeça.
- Quer faturinha?
Não queria Portugal assim, pobrezito, entristecito, labedor das suas feriditas, assustadito, soltando para os ar os seus aisitos.
Não queria Portugal assim, alienadozito, embaladito nos progamitas da TVzita, gentinha menorzinha feita famosita pela nossa alienaçãozita, pelo nosso futebolito, pelo Ronaldito madrilenozito, pelo fadito lisbpetita, pelo facebuquito.
Não queria Portugal assim, remordiditnho e ressaibiadinho, atirando para cima dos outros as suas próprias culpazinhas, no temorzito de que vacile o seu egozinho.
Não queria Portugal assim, carregado de saudadezinha e poetazinhos, ignorantezinho, lírico e misticizinho, mais crente na senhora de fatimazinha do que na sua vontadezinha nacional.
Estou no restaurante, chamo o empregado para pagar. Ele aproxima e sussurra:
- É a contazinha?
Confirmo com um sinal de cabeça.
- Quer faturinha?
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Senhora dona Esperança de Jesus (Picolina)
os meus dedos esceventes, numa aurora de luzes cristalinas, debruçaram-se sobre o papel desafiadoramente branco, e trataram de redímir e resgatar a senhora dona mais proscrita da cidade. ela, sim, achincalhada, paupérrima, ridicularizada, eliminada das convivências dignas da sociedade que se porta bem. os meus dedos escreventes, pela primeira vez, teceram frases no tear difícil da poesia e procuraram a inspiração numa velha messalina, velha, velha, esquálida. repito: proscrita. tentaram a sua redenção, repito. desejaram o seu resgate, repito. mas logo as vozes da moralidade suspeita atiçaram aquela senhora dona contra mim. percorre a cidade esta pobre senhora dona à minha procura, convencida que estou rico à sua custa e à custa do seu nome.
minha querida senhora dona, como podem fazer de ti um pobre joguete? como podem os ódios ressaibiados, camuflados também, lambedores das feridas das suas frustrações, fazer de ti um pobre títere?
como se não bastasse teres sido explorada, humilhada, desfesnestrada, avilentada, ainda fazem de ti um fantoche manipulável.
a hipocrisia será sempre hipocrisia seja ela dita em que língua for, habite ela que ser humano habitar
Não me faças cumprimentos
deixa-te de hipocrisias
o alívio dos maus sentimentos
não se faz com cortesias
António Aleixo
os meus dedos esceventes, numa aurora de luzes cristalinas, debruçaram-se sobre o papel desafiadoramente branco, e trataram de redímir e resgatar a senhora dona mais proscrita da cidade. ela, sim, achincalhada, paupérrima, ridicularizada, eliminada das convivências dignas da sociedade que se porta bem. os meus dedos escreventes, pela primeira vez, teceram frases no tear difícil da poesia e procuraram a inspiração numa velha messalina, velha, velha, esquálida. repito: proscrita. tentaram a sua redenção, repito. desejaram o seu resgate, repito. mas logo as vozes da moralidade suspeita atiçaram aquela senhora dona contra mim. percorre a cidade esta pobre senhora dona à minha procura, convencida que estou rico à sua custa e à custa do seu nome.
minha querida senhora dona, como podem fazer de ti um pobre joguete? como podem os ódios ressaibiados, camuflados também, lambedores das feridas das suas frustrações, fazer de ti um pobre títere?
como se não bastasse teres sido explorada, humilhada, desfesnestrada, avilentada, ainda fazem de ti um fantoche manipulável.
a hipocrisia será sempre hipocrisia seja ela dita em que língua for, habite ela que ser humano habitar
Não me faças cumprimentos
deixa-te de hipocrisias
o alívio dos maus sentimentos
não se faz com cortesias
António Aleixo
domingo, 13 de abril de 2014
Escrever é a liberdade em extensão
Pelos dedos escreventes entro num território de experimentação, experimento o que nunca foi experimentado, faço caminhos que ninguém percorreu, dou vivo sabor às palavras. Os meus dedos escrevem -escrevem-me - e com eles invento as minhas próprias regras de criador. Escrevo um conto, um poema , um capítulo de um romance, uma cena de teatro, e através desses meus dedos escreventes dou a volta ao mundo.
Eu sou eu e os meus dedos escreventes. Por isso, enquanto criador e desafiador, abato regras porque recuso a imitação. Um criador também é para isso que serve: desfazer o que parece estar bem-feito, olhar para o outro lado das palavras, virá-las do avesso. E as pessoas que me lerem, que sofram também dessa transfiguração. O mundo plácido, xaroposo, é para aqueles que nunca se inquietam. Era desses que gostava o caudilho de Santa Comba. É desta matéria de que todos somos feitos. Salazar não foi obra do acaso, tal como a irmandade Passo/Portas. Há uma história nacional por detrás desta gente. Repito: a nossa portugalidade é feita de marasmos, manhas e ciganices.
Por isso, para mim, escrever é a liberdade em extensão.
Pelos dedos escreventes entro num território de experimentação, experimento o que nunca foi experimentado, faço caminhos que ninguém percorreu, dou vivo sabor às palavras. Os meus dedos escrevem -escrevem-me - e com eles invento as minhas próprias regras de criador. Escrevo um conto, um poema , um capítulo de um romance, uma cena de teatro, e através desses meus dedos escreventes dou a volta ao mundo.
Eu sou eu e os meus dedos escreventes. Por isso, enquanto criador e desafiador, abato regras porque recuso a imitação. Um criador também é para isso que serve: desfazer o que parece estar bem-feito, olhar para o outro lado das palavras, virá-las do avesso. E as pessoas que me lerem, que sofram também dessa transfiguração. O mundo plácido, xaroposo, é para aqueles que nunca se inquietam. Era desses que gostava o caudilho de Santa Comba. É desta matéria de que todos somos feitos. Salazar não foi obra do acaso, tal como a irmandade Passo/Portas. Há uma história nacional por detrás desta gente. Repito: a nossa portugalidade é feita de marasmos, manhas e ciganices.
Por isso, para mim, escrever é a liberdade em extensão.
sábado, 12 de abril de 2014
D. Frei, o meu concentrado escrevente
Assim vivo e respiro numa espécie de redoma escrevente. Trago o arcebispo comigo, como já trouxe a dona Esperança de Jesus(Picolina). E o capitão Melquíades Sobral, um heroi feito de lealdades e coerências (que poucos vianenses conhecem,). E Branca Dias, uma heroina do quotidiano, mulher de multicoragens e multidesafios, a primeira mulher dona de um engenho de açúcar.
Escrevo o que tenho de escrever, escrevo o que se me impõe escrever. Escrever, sim, agilizar a mente escrevente através dos dedos disponíveis para a articulação que se exige: a escrevente.
O importante para mim não é tanto o que sei fazer de melhor mas escrever o que sei e como sei, saindo dos meus próprios limites. Dedos escreventes, façam o que vos impõe: escrever.
E como o Criador-dos-Escritos não deve conhecer limites, ele que escreva o que falta escrever. Aquilo que não está escrito, a omissão do escrito, é o que deve ser escrito. Escrever o que os outros já escreveram não me parece que seja interessante.
Trago-te comigo, d. frei, não aquele que querem fazer de ti santo, mas o homem das audácias, o que desafiou as águas podres de um catolicismo de fachada, conservador e tramontano. Escrevo o que aos meus dedos escreventes se impõe: re-escrever d. frei, esse homem desassossegado e desassossegador. É com estes meus dedos escreventes que vou roubando dias à morte.
Assim vivo e respiro numa espécie de redoma escrevente. Trago o arcebispo comigo, como já trouxe a dona Esperança de Jesus(Picolina). E o capitão Melquíades Sobral, um heroi feito de lealdades e coerências (que poucos vianenses conhecem,). E Branca Dias, uma heroina do quotidiano, mulher de multicoragens e multidesafios, a primeira mulher dona de um engenho de açúcar.
Escrevo o que tenho de escrever, escrevo o que se me impõe escrever. Escrever, sim, agilizar a mente escrevente através dos dedos disponíveis para a articulação que se exige: a escrevente.
O importante para mim não é tanto o que sei fazer de melhor mas escrever o que sei e como sei, saindo dos meus próprios limites. Dedos escreventes, façam o que vos impõe: escrever.
E como o Criador-dos-Escritos não deve conhecer limites, ele que escreva o que falta escrever. Aquilo que não está escrito, a omissão do escrito, é o que deve ser escrito. Escrever o que os outros já escreveram não me parece que seja interessante.
Trago-te comigo, d. frei, não aquele que querem fazer de ti santo, mas o homem das audácias, o que desafiou as águas podres de um catolicismo de fachada, conservador e tramontano. Escrevo o que aos meus dedos escreventes se impõe: re-escrever d. frei, esse homem desassossegado e desassossegador. É com estes meus dedos escreventes que vou roubando dias à morte.
sábado, 29 de março de 2014
as noites brancas de Branca Dias
Branca Dias (1515- 1585) foi uma mullher vianense que em meados do século XVI se instalou em Camaragibe (Olinda-Recife). É uma heroina sem o que querer ser e que chega até nós envolta na história e na lenda.
Judia, depois de se condenada pela Inquisição, em Lisboa, embarca para o Brasil, levando consigo os seus sete filhos, onde já se encontrava o marido, outro vianense, Diogo Fernandes (fal. 1565). Haviam de lhe nascer mais quatro em Camaragibe.
Ela é a primeira mulher a praticar secretamente esnoga (os ritos judaicos), funda uma escola laica para meninas onde ensinava artes domésticas (cozer, tecer, aforrar) e torna-se, por morte do marido, a primeira mulher dona de um engenho de açúcar. É talvez este papel de dona e matriarca que lhe dá maior relevo e que fez chegar a sua fama até nós.
Na peça "As noites brancas de Branca Dias", toda acção gira à volta desta personagem poderosa, a luta que ela trava para manter a funcionar o seu engenho de açúcar -um dos mais produtivos de Camaragibe -, a fuga dos escravos negros, o perigo que correm num região dominada pelos índios tupinambás (antropófagos).
Porém aquela paz que ela tinha como garantida, a salvo das garras da inquisição, é quebrada com a chegada do Inquisidor-Mor, vindo de Lisboa.
As suas noites brancas, porque estreladas e luarentas, vão-se tonar num grande pesadelo.
O que se enaltece na peça é "o lado popular do heroismo quotidiano, exultante e aziago, miscigenador e dizimador, rapace dos primeiros colonos portugueses no Brasil" (Miguel Real)
Branca Dias (1515- 1585) foi uma mullher vianense que em meados do século XVI se instalou em Camaragibe (Olinda-Recife). É uma heroina sem o que querer ser e que chega até nós envolta na história e na lenda.
Judia, depois de se condenada pela Inquisição, em Lisboa, embarca para o Brasil, levando consigo os seus sete filhos, onde já se encontrava o marido, outro vianense, Diogo Fernandes (fal. 1565). Haviam de lhe nascer mais quatro em Camaragibe.
Ela é a primeira mulher a praticar secretamente esnoga (os ritos judaicos), funda uma escola laica para meninas onde ensinava artes domésticas (cozer, tecer, aforrar) e torna-se, por morte do marido, a primeira mulher dona de um engenho de açúcar. É talvez este papel de dona e matriarca que lhe dá maior relevo e que fez chegar a sua fama até nós.
Na peça "As noites brancas de Branca Dias", toda acção gira à volta desta personagem poderosa, a luta que ela trava para manter a funcionar o seu engenho de açúcar -um dos mais produtivos de Camaragibe -, a fuga dos escravos negros, o perigo que correm num região dominada pelos índios tupinambás (antropófagos).
Porém aquela paz que ela tinha como garantida, a salvo das garras da inquisição, é quebrada com a chegada do Inquisidor-Mor, vindo de Lisboa.
As suas noites brancas, porque estreladas e luarentas, vão-se tonar num grande pesadelo.
O que se enaltece na peça é "o lado popular do heroismo quotidiano, exultante e aziago, miscigenador e dizimador, rapace dos primeiros colonos portugueses no Brasil" (Miguel Real)
segunda-feira, 24 de março de 2014
Prêmio Literário Cidade de Aragutu (Aracatu)
Prêmio Literário Cidade da Aragatu (Aracatu)
Prêmio Literário Cidade
de Aragutu (Aracutu)
(excerto da ata
aprovada em reunião plenária do júri 3 de Março de 2014 e devidamente subscrita
por seus intervenientes)
O júri do Prêmio Literário Cidade de Aragutu (Aracutu) distinguiu o
original “AS NOITES BRANCAS DE BRANCA
DIAS” de Orlando Ferreira Barros – pseudônimo Francisco Edmeia – com o
prêmio especial para a modalidade de texto dramático.
A
decisão foi tomada por consenso.
Motivos
da premiação:
O texto de
Orlando Ferreira Barros (Portugal) revela um grande capacitamento dramático ao
conseguir através dos dramas íntimos de cada personagem, desenvolver um retrato
social objetivo e muito realista do Brasil colonial do século XVI.
A trama se vai desenvolvendo em
vários patamares: os portugueses cuidando de sua sobrevivência, a escravização do
negro africano e os trabalhos no engenho, a luta com as tribos autôctones (os
tupinambás – antropôfagos) e a ainda a prática do judaísmo em terras
brasileiras.
Texto revelador
de uma notável sensibilidade de mestria cênica, segue mantendo até ao fim muito
suspense na ação que termina com o excelente monôlogo da protagonista, a
portuguesa Branca Dias.
Juri
José Cavalcanti Júnior (jornalista)
Maria de Pádua Gonzalez (radialista)
Wagner dos Santos-Santos (crítico
literário)
Crisóstomo Ruy Faria Carvalho (representante do júri)
Cidade
de Aragutu (Aracutu), 4 de Março , 2014
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