segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

BALANÇO





                                                         




                                                             BALANÇO

                                 Ao abalançar-me ao poema
                                 jamais me ouvirão dizer agora
                                 jamais me ouvirão um nunca.

                                 Agora nunca será agora
                                 e o nunca não é o agora
                                 que jamais será nunca.

                                   Um poema acende a luz da eternidade
                                   que sempre foi.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

deus ou Deus?

                                                                    












                                                                   
               Se me é relativamente fácil falar da grande divindade, a coisa fia mais fino se tenho que escrever. Levanta-se a dúvida incómoda: deus ou Deus?
              A minha educação e tradição familiar impõem que grafe a inicial com letra maiúscula.  Contudo a minha idiossincrasia formada na leitura dos autores racionalistas e o meu próprio racionalismo temperado na minha vontade de observar o mundo do lado do avesso, obrigam-me a escrever a inicial com minúscula. De facto, sou um agnóstico pouco convicto, quase a entrar no ateísmo.
                Mas a verdade é que continuo a escrever Deus e não deus. Reconheço que é um disparate em quem não tem fé. É melhor assim, não vá o diabo (ou DEUS) tecê-las.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O POETA NO FIM DA LINHA



                                                      O POETA NO FIM DA LINHA
                                                                              
                                                                (a partir de uma confidência do poeta António da Silva Melo)

                     Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, deleita-se o poeta no silêncio da catacumba. Entre relâmpagos e seios de mulheres, as angústias  que o sufocam derramam-se no papel branco onde vão nascendo versos atrás de versos, semelhantes aos ventos que enrugam as almas e secam os rios.
             Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, os seus versos torna-se cilícios ferindo a carne, e a carne deixando exangue. A morte anuncia-se em cada flagelação, e hoje os velhos enforcam-se  nas tardes outonais, os predadores de falas invencíveis atraem as crianças.   O sopro do medo exige novos funerais .   
         Sua mãe espera o poeta no fim da linha. É a única capaz de lhe dar a absolvição.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A domesticação das asas

                                A DOMESTICAÇÃO DAS ASAS

quando a chuva tocar a terra
as aves saberão despertar da agonia estival
os temperos rupestres hão-de exalar
os odores recomendados
pelos sete sábios da Grécia Antiga

aguardemos que as figueiras excêntricas,
antes do vicejar dos frutos apetecíveis,
descerrem por fim as alvas flores de lírio
e que nos seus ramos engatilhados
sejam proibidas aquelas cordas submissas
onde se penduram homens de pele baça
no temor de um futuro
açulado por cães proscritos e lazarentos

com o chão bêbado pela água baptismal
tu irás recuperar as asas sedentárias
para te aconchegarem
- é certo que contrariada-
na tepidez monótona do meu regaço,
o teu peito libertando um desditoso queixume

depois, ao fazermos um amor sereno
proibidas todas as pressas
vasculhamos as pregas recônditas dos nossos corpos
beijamo-nos nas salivas das bocas acossadas
e
de olhos cheios recusaremos os vendavais inúteis

hei-de ler-te então um parágrafo
daquela perpétua, serena  e leal afeição
tal como  a quero e conjecturo
(estou a pensar em Corin Tellado, porque não?)

é certo que tu, meu bem-amar,
desejavas tão-somente
consumir-te  nos versos desinquietos
da Natália insubmissa,
esses versos onde o amor fiel e perpétuo
por demasiado tacanho
não cabe

         in Poesia dos Objectos Inúteis (2014 - Novembro)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Enquanto navegávamos


               Enquanto Navegávamos

           O Centro Dramático de Viana mantendo a estratégia cultural de abertura à comunidade vianense, não só pegando em temáticas que dizem respeito às vivências da cidade como também incentivando a participação de actores amadores (os que amam o teatro, pois claro) levantou este “Enquanto Navegávamos”. O desafio não podia ser mais perigoso. Estamos a falar de um elenco que sendo apenas todo amador,- com  os riscos que o amadorismo pode trazer a terreiro - constituído por nove ex-operários calejados e duros que possivelmente nunca terão visto teatro em toda a sua vida. Foi então com esta “massa bruta” que se ergueu o espectáculo que resumidamente trata a vivência dos estaleiros desde as suas origens nos longínquos anos 50 até ao momento em que a empresa doridamente se afoga.
          Só que os encenadores (Ricardo Simões e Guillermo Tello) jogaram com todos os trunfos que tinham à sua disposição, dando, estrategicamente, um brilho maior à arquitectura do espectáculo no seu todo e não tanto às debitações dos actores. E esse trunfos passaram por 1) uma forte utilização dos adereços saídos da teia, (dois dos momentos mais belos resultaram daqui) 2) uma marcação de palco que explorava e bem as profundas de todo o espaço cénico - fazendo lembrar a imensidão dos estaleiros e até da própria “Coreia” (interessante expressão do calão operário referindo-se à distante guerra da Coreia), 3) a música de cantores que todos conhecemos e que fazem parte da nossa memória, 4) uma excelente arquitectura de luzes, delimitando espaços, momentos, emoções. A surpreendente cena final, a melhor de todas, resulta daqui, com o grupo simbolicamente a “afundar-se” até ao sub-palco 5) utilização do proscénio e entrada dos actores pela assistência 6) sequências de pura expressão corporal. 7) A marcha insistente,  repetida e longa (outro momento muito belo) para marcar o 25 de Abril, fugindo à estafadíssima Grândola que neste momento serve para tudo.  8) E nessa cena final evitando uma sequência panflaeária de punho no ar e mais Grândola.
  Só faltou na esteira do melhor teatro sul-americano uma canção final, quando os actores surgem para receber o  prémio sem preço: os aplausos acalorados do público, com repetidas chamadas ao palco.
           Gostei de tudo? Não. Houve momentos de uma certa monotonia, a dicção destes operários duros nem sempre foi a melhor, embora tenham partido muito pedra (é certo que já vi disto em alguns profissionais, portanto…). O quadro arrastado dos “adeuses” aos barcos saindo doca foi longo e monótono. Além de ver uns operários  com a cara escanhoada e lisa como mármore.
            Mas é um espectáculo digno e portentoso, que preenche a alma de quem gosta de teatro com momentos muito bons de pura beleza e alguma inquietação. 
 

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ai Jesus, Jesus, que vem aí o raio do ébola!

                                          Ai, Jesus, Jesus, que vem aí o raio do ébola
 
 
          As notícias que as televisões fazem aterradoras dizem-nos que temos aí o ébola a bater-nos à porta. Há especialistas que nos garantem, para nosso sossego, que é muito difícil que a epidemia possa alastrar pela Europa e explicam-no tim-tim por tim-tim. Mas este sossego não faz audiências nem vende jornais. É preciso carregar nas cores da desgraça e nem Santo António (ou um outro santo qualquer) nos pode valer. Fizeram de uma enfermeira espanhola, a quem foi detectada o vírus, um acontecimento de passadeira vermelha e embora a dita senhora se tenha safado, eunatasiaram-lhe o pobre canídeo  que isto quando toca à desgraça e pô-la bem negra. Ainda quiseram entrevistar o pobre do animal mas já o tinham despachado e enfiado num buraco com doios metros de fundo.
 
         Este terror absurdo já foi assim com a gripe das galinhas, a doença das vacas endoidecidas, os pepinos que se julgava que matavam que se fartavam e mais recentemente um tal virus A (não estou seguro da designação) que vinha aí para dizimar meio mundo. Esperava-se uma mortandade que faria inveja à peste negra. Nada aconteceu de significativo.
 
       Temos aí o ébola, insistem as televisões  a espelahar o terror e perspectivam o pior dos cenários que até já envolve os futebolistas africanos a jogar na Europa. De facto trememos com o que vem dos pretos, os africanos, claro. Mas ninguém quer saber que na África da nossa tristeza se morre à fome e à sede, que  ela seja pasto para ditadores com uma pedra no coração, que sofra o esgotamento dos seus preciosos recursos naturais que vão alimentar a ganância dos ricos e dos poderosos, que as meninas tenham filhos aos doze anos e milhões sejam vítimas dessa tradição canalha que é excisão genital, que a mortalidade infantil registe os números dramáticos da nossa Idade Média, que a esperança de vida não passe de um sopro fugaz, que a população de alguns países revele o aumento imparável da sida e da tuberculose, que não haja escolas, nem hospitais, nem saneamento básico é água potável, nem uma imprensa livre e digna.
      O que nos preocupa é o raio dessa doença que vem dos pretos. Quanto ao resto, saúde e bichas.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Primeira Notícia para a MÃE

                                                                               Mãe, cheira a Natal?
      


        Agora que estamos à beira do Natal, recordo a minha infância limpa de consumismos e afogos de prendas. O Natal era a família, todos reunidos á volta da mesa, a retemperar e refazer amisades.
Quero dizer-lhe que cá em baixo continuaria tudo na mesma se as pessoas não se afogassem no rodopio das compras. Deixe-se estar onde está, nessa galáxia resplandecente.
    Sei que tem muitas saudades nossas, mas quem não tem?
     Do seu filho
     Orlando