sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

FEARLESS (para a Fernanda Santos)

   
 
FEARLESS
 
                               quando deste o primeiro e inseguro passo
                               não temeste as ciladas e os escolhos
                               menos ainda as rajadas do humano sarcasmo
 
                               cumprindo um rito antigo,
                               como numa irresistível pulsão de peregrino,
                               foste fazendo caminhada e carreira.
 
                               pergunto-me se estaria o caminho preparado.
                               porém, tu, munida do abecedário do arrojo,
                               tinhas-te preparado para ele.
 
                                que cobarde invertebrado,
                                poeta detergente,
                                desajeitado guerreiro,
                                                              se negará a seguir-te?
                                   
 
                    
 
 
 


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O ÚNICO DISPARO DE SÍLVIO SILVÉRIO

 
 
 

 
                 Por amor de uma jovem rica da sua aldeia, alistou-se como voluntário na tropa e depois na guerra colonial. De famílias pobres,  o que iria ganhar como furriel havia de lhe proporcionar o casamento com aquela a quem amava até à loucura do desespero.
           Porém, dois anos depois, quando recebeu um aerogama a dizer-lhe que a amada engravidara de outro, enfiou o cano da espingarda-metralhadora FN na boca e premiu o gatilho, sem deixar de amaldiçoar a traidora, que a levasse o diabo para o inferno.
           Sílvio Silvério suicidou-se no norte de Angola, junto às margens do rio Caiulo. Na guerra, o único tiro que disparou foi para se matar.
 
 
    

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

BALANÇO





                                                         




                                                             BALANÇO

                                 Ao abalançar-me ao poema
                                 jamais me ouvirão dizer agora
                                 jamais me ouvirão um nunca.

                                 Agora nunca será agora
                                 e o nunca não é o agora
                                 que jamais será nunca.

                                   Um poema acende a luz da eternidade
                                   que sempre foi.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

deus ou Deus?

                                                                    












                                                                   
               Se me é relativamente fácil falar da grande divindade, a coisa fia mais fino se tenho que escrever. Levanta-se a dúvida incómoda: deus ou Deus?
              A minha educação e tradição familiar impõem que grafe a inicial com letra maiúscula.  Contudo a minha idiossincrasia formada na leitura dos autores racionalistas e o meu próprio racionalismo temperado na minha vontade de observar o mundo do lado do avesso, obrigam-me a escrever a inicial com minúscula. De facto, sou um agnóstico pouco convicto, quase a entrar no ateísmo.
                Mas a verdade é que continuo a escrever Deus e não deus. Reconheço que é um disparate em quem não tem fé. É melhor assim, não vá o diabo (ou DEUS) tecê-las.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O POETA NO FIM DA LINHA



                                                      O POETA NO FIM DA LINHA
                                                                              
                                                                (a partir de uma confidência do poeta António da Silva Melo)

                     Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, deleita-se o poeta no silêncio da catacumba. Entre relâmpagos e seios de mulheres, as angústias  que o sufocam derramam-se no papel branco onde vão nascendo versos atrás de versos, semelhantes aos ventos que enrugam as almas e secam os rios.
             Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, os seus versos torna-se cilícios ferindo a carne, e a carne deixando exangue. A morte anuncia-se em cada flagelação, e hoje os velhos enforcam-se  nas tardes outonais, os predadores de falas invencíveis atraem as crianças.   O sopro do medo exige novos funerais .   
         Sua mãe espera o poeta no fim da linha. É a única capaz de lhe dar a absolvição.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A domesticação das asas

                                A DOMESTICAÇÃO DAS ASAS

quando a chuva tocar a terra
as aves saberão despertar da agonia estival
os temperos rupestres hão-de exalar
os odores recomendados
pelos sete sábios da Grécia Antiga

aguardemos que as figueiras excêntricas,
antes do vicejar dos frutos apetecíveis,
descerrem por fim as alvas flores de lírio
e que nos seus ramos engatilhados
sejam proibidas aquelas cordas submissas
onde se penduram homens de pele baça
no temor de um futuro
açulado por cães proscritos e lazarentos

com o chão bêbado pela água baptismal
tu irás recuperar as asas sedentárias
para te aconchegarem
- é certo que contrariada-
na tepidez monótona do meu regaço,
o teu peito libertando um desditoso queixume

depois, ao fazermos um amor sereno
proibidas todas as pressas
vasculhamos as pregas recônditas dos nossos corpos
beijamo-nos nas salivas das bocas acossadas
e
de olhos cheios recusaremos os vendavais inúteis

hei-de ler-te então um parágrafo
daquela perpétua, serena  e leal afeição
tal como  a quero e conjecturo
(estou a pensar em Corin Tellado, porque não?)

é certo que tu, meu bem-amar,
desejavas tão-somente
consumir-te  nos versos desinquietos
da Natália insubmissa,
esses versos onde o amor fiel e perpétuo
por demasiado tacanho
não cabe

         in Poesia dos Objectos Inúteis (2014 - Novembro)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Enquanto navegávamos


               Enquanto Navegávamos

           O Centro Dramático de Viana mantendo a estratégia cultural de abertura à comunidade vianense, não só pegando em temáticas que dizem respeito às vivências da cidade como também incentivando a participação de actores amadores (os que amam o teatro, pois claro) levantou este “Enquanto Navegávamos”. O desafio não podia ser mais perigoso. Estamos a falar de um elenco que sendo apenas todo amador,- com  os riscos que o amadorismo pode trazer a terreiro - constituído por nove ex-operários calejados e duros que possivelmente nunca terão visto teatro em toda a sua vida. Foi então com esta “massa bruta” que se ergueu o espectáculo que resumidamente trata a vivência dos estaleiros desde as suas origens nos longínquos anos 50 até ao momento em que a empresa doridamente se afoga.
          Só que os encenadores (Ricardo Simões e Guillermo Tello) jogaram com todos os trunfos que tinham à sua disposição, dando, estrategicamente, um brilho maior à arquitectura do espectáculo no seu todo e não tanto às debitações dos actores. E esse trunfos passaram por 1) uma forte utilização dos adereços saídos da teia, (dois dos momentos mais belos resultaram daqui) 2) uma marcação de palco que explorava e bem as profundas de todo o espaço cénico - fazendo lembrar a imensidão dos estaleiros e até da própria “Coreia” (interessante expressão do calão operário referindo-se à distante guerra da Coreia), 3) a música de cantores que todos conhecemos e que fazem parte da nossa memória, 4) uma excelente arquitectura de luzes, delimitando espaços, momentos, emoções. A surpreendente cena final, a melhor de todas, resulta daqui, com o grupo simbolicamente a “afundar-se” até ao sub-palco 5) utilização do proscénio e entrada dos actores pela assistência 6) sequências de pura expressão corporal. 7) A marcha insistente,  repetida e longa (outro momento muito belo) para marcar o 25 de Abril, fugindo à estafadíssima Grândola que neste momento serve para tudo.  8) E nessa cena final evitando uma sequência panflaeária de punho no ar e mais Grândola.
  Só faltou na esteira do melhor teatro sul-americano uma canção final, quando os actores surgem para receber o  prémio sem preço: os aplausos acalorados do público, com repetidas chamadas ao palco.
           Gostei de tudo? Não. Houve momentos de uma certa monotonia, a dicção destes operários duros nem sempre foi a melhor, embora tenham partido muito pedra (é certo que já vi disto em alguns profissionais, portanto…). O quadro arrastado dos “adeuses” aos barcos saindo doca foi longo e monótono. Além de ver uns operários  com a cara escanhoada e lisa como mármore.
            Mas é um espectáculo digno e portentoso, que preenche a alma de quem gosta de teatro com momentos muito bons de pura beleza e alguma inquietação.