quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
UM DEUS À MÃO (inédito)
Em qualquer gaveto de qualquer cidade,
costumo deparar-me com Deus, encostado contra a parede.
Está velho e carcomido, como carcaça de navio
agonizante no areal. Renovo o meu comentário,
numa constelação de sílabas,
dizendo-lhe que Ele devia ter parado ao quinto dia
na criação do mundo. Deus encolhe os ombros
no silêncio do gesto derrotado,
e eu desando dali, movendo-me por entre a multidão
de joelhos e braços para o Céu, implorando
as ajudas divinas. Há um rasto de sangue,
e uma neblina para onde converge toda
a ferocidade do homem.
Ali está Ele, tão à mão de semear e ninguém
O vê. .
domingo, 7 de fevereiro de 2016
A UM IMPLACÁVEL DEUS
O deus que me vigiou a infância era cruel e vingativo. À noite, de joelhos junto à cama, qual cordeiro do sacrifício, eu rezava sofregamente, atemorizado, dirigindo-me aquele Matusalém de barbas brancas e olhar iracundo.
Tirano, era por sua decisão arbitrária que ele talvez nos oferecesse a vida eterna, junto de querubins andrógenos e ternurentos.
A vida era esta permanente e terrível dúvida, pois ignorávamos a sua decisão salomónica: condenação ou absolvição.
Já a tocar a idade adulta, tive que inventar outros deuses, estes mais terrenos, acessíveis e racionais, e poder seguir na vida acreditando nas capacidades de que dispunha.
Acho que não me dei mal. PAX!sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
FEARLESS (para a Fernanda Santos)
FEARLESS
quando deste o primeiro e inseguro passo
não temeste as ciladas e os escolhos
menos ainda as rajadas do humano sarcasmo
cumprindo um rito antigo,
como numa irresistível pulsão de peregrino,
foste fazendo caminhada e carreira.
pergunto-me se estaria o caminho preparado.
porém, tu, munida do abecedário do arrojo,
tinhas-te preparado para ele.
que cobarde invertebrado,
poeta detergente,
desajeitado guerreiro,
se negará a seguir-te?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
O ÚNICO DISPARO DE SÍLVIO SILVÉRIO
Por amor de uma jovem rica da sua aldeia, alistou-se como voluntário na tropa e depois na guerra colonial. De famílias pobres, o que iria ganhar como furriel havia de lhe proporcionar o casamento com aquela a quem amava até à loucura do desespero.
Porém, dois anos depois, quando recebeu um aerogama a dizer-lhe que a amada engravidara de outro, enfiou o cano da espingarda-metralhadora FN na boca e premiu o gatilho, sem deixar de amaldiçoar a traidora, que a levasse o diabo para o inferno.
Sílvio Silvério suicidou-se no norte de Angola, junto às margens do rio Caiulo. Na guerra, o único tiro que disparou foi para se matar.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
BALANÇO
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
deus ou Deus?
Se me é relativamente fácil falar da grande divindade, a coisa fia mais fino se tenho que escrever. Levanta-se a dúvida incómoda: deus ou Deus?
A minha educação e tradição familiar impõem que grafe a inicial com letra maiúscula. Contudo a minha idiossincrasia formada na leitura dos autores racionalistas e o meu próprio racionalismo temperado na minha vontade de observar o mundo do lado do avesso, obrigam-me a escrever a inicial com minúscula. De facto, sou um agnóstico pouco convicto, quase a entrar no ateísmo.
Mas a verdade é que continuo a escrever Deus e não deus. Reconheço que é um disparate em quem não tem fé. É melhor assim, não vá o diabo (ou DEUS) tecê-las.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
O POETA NO FIM DA LINHA
O POETA NO FIM DA LINHA
(a partir de uma confidência do poeta António da Silva Melo)
Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, deleita-se o poeta no silêncio da catacumba. Entre relâmpagos e seios de mulheres, as angústias que o sufocam derramam-se no papel branco onde vão nascendo versos atrás de versos, semelhantes aos ventos que enrugam as almas e secam os rios.
Enquanto sua mãe o espera no fim da linha, os seus versos torna-se cilícios ferindo a carne, e a carne deixando exangue. A morte anuncia-se em cada flagelação, e hoje os velhos enforcam-se nas tardes outonais, os predadores de falas invencíveis atraem as crianças. O sopro do medo exige novos funerais .
Sua mãe espera o poeta no fim da linha. É a única capaz de lhe dar a absolvição.
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