segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
A EMPRENHADA
A EMPRENHADA
com aquelas dores que incendeiam os astros,
a mulher carregava em seu ventre
o escolhido.
e o burro caregava os dois
sua passada era mansa,
e fulgente o pó do caminho.
isto foi um pouco antes do do tempo
que o tempo só teria início
quando a emprenhada parisse numa gruta,
devastada pelas dores,
os sangues
o mijo.
depois do primogénito
outros nasceram
mas aquele primeiro
guardava-se no coração da mãe
como a esquiva chuva que cai na Judeia.
trinta e três anos após o início do tempo,
o escolhido pediu a ajuda ao pai
quando se viu pregado no madeiro.
e o silêncio sem resposta
era um grande monstro.
como entender que não tenha chamado
pela mãe?
o dia morria
e a tarde anunciava o crepúsculo de Deus.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
DEUS NO SAPATO (inédito)
aqui há gato
resmungou o poeta
incapaz de fechar o soneto.
e como sentia
a lírica enferrujada
libertou-se de Deus
que lhe apertava o sapato
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
UM DEUS À MÃO (inédito)
Em qualquer gaveto de qualquer cidade,
costumo deparar-me com Deus, encostado contra a parede.
Está velho e carcomido, como carcaça de navio
agonizante no areal. Renovo o meu comentário,
numa constelação de sílabas,
dizendo-lhe que Ele devia ter parado ao quinto dia
na criação do mundo. Deus encolhe os ombros
no silêncio do gesto derrotado,
e eu desando dali, movendo-me por entre a multidão
de joelhos e braços para o Céu, implorando
as ajudas divinas. Há um rasto de sangue,
e uma neblina para onde converge toda
a ferocidade do homem.
Ali está Ele, tão à mão de semear e ninguém
O vê. .
domingo, 7 de fevereiro de 2016
A UM IMPLACÁVEL DEUS
O deus que me vigiou a infância era cruel e vingativo. À noite, de joelhos junto à cama, qual cordeiro do sacrifício, eu rezava sofregamente, atemorizado, dirigindo-me aquele Matusalém de barbas brancas e olhar iracundo.
Tirano, era por sua decisão arbitrária que ele talvez nos oferecesse a vida eterna, junto de querubins andrógenos e ternurentos.
A vida era esta permanente e terrível dúvida, pois ignorávamos a sua decisão salomónica: condenação ou absolvição.
Já a tocar a idade adulta, tive que inventar outros deuses, estes mais terrenos, acessíveis e racionais, e poder seguir na vida acreditando nas capacidades de que dispunha.
Acho que não me dei mal. PAX!sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
FEARLESS (para a Fernanda Santos)
FEARLESS
quando deste o primeiro e inseguro passo
não temeste as ciladas e os escolhos
menos ainda as rajadas do humano sarcasmo
cumprindo um rito antigo,
como numa irresistível pulsão de peregrino,
foste fazendo caminhada e carreira.
pergunto-me se estaria o caminho preparado.
porém, tu, munida do abecedário do arrojo,
tinhas-te preparado para ele.
que cobarde invertebrado,
poeta detergente,
desajeitado guerreiro,
se negará a seguir-te?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
O ÚNICO DISPARO DE SÍLVIO SILVÉRIO
Por amor de uma jovem rica da sua aldeia, alistou-se como voluntário na tropa e depois na guerra colonial. De famílias pobres, o que iria ganhar como furriel havia de lhe proporcionar o casamento com aquela a quem amava até à loucura do desespero.
Porém, dois anos depois, quando recebeu um aerogama a dizer-lhe que a amada engravidara de outro, enfiou o cano da espingarda-metralhadora FN na boca e premiu o gatilho, sem deixar de amaldiçoar a traidora, que a levasse o diabo para o inferno.
Sílvio Silvério suicidou-se no norte de Angola, junto às margens do rio Caiulo. Na guerra, o único tiro que disparou foi para se matar.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
BALANÇO
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