terça-feira, 1 de março de 2016
A PALAVRA INAUGURADA (inédito)
A PALAVRA INAUGURADA
este deixou de ser o tempo da palavra.
denegriram-na os alquimistas da fala
com os seus discursos de estrelas liquefeitas.
traída a palavra nas bocas donde se soltam varejeiras
de azulado dorso, abro a tampa do poço
onde guardo os meus berlindes
e deixo a memória inaugurar a linguagem dos pássaros.
SALOMÉ (inédito)
SALOMÉ
é certo, Salomé, que pediste a minha cabeça numa bandeja, mas isso foi muito depois de te conhecer naquele primeiro orvalho do Inverno.
até aí, pela tua mão, teci a luz dos salmos,
por ti roubei o luar que afaga o piar dos pássaros sensatos no quadro da noite. fui chuva improvável no deserto das sombras, e insisto, por ti fui capaz de fazer lume para aquecer a indiferença dos altares.
mas também pela tua mão, Salomé,
conheci a fome que devora o rosto, a peste do medo,
as pústulas mais sórdidas da carne.
pela tua mão fui capaz de matar como velhas loucas de cabelos furiosos e facas em riste.
isto foi ontem, Salomé, quando pediste
a minha cabeça numa bandeja.
assim seja.
ao terceiro dia, a ressurreição.
a minha.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
A NATURAL MUTAÇÃO (inédito)
A NATURAL MUTAÇÃO
É-me difícil calcular a insubmissão da tua alma quando naqueles dias em que vestes de volúvel inquietude, traças um rumo que não entendo. O teu rumo é minha teia pois há perguntas que gostaria de te fazer e há prenúncios de respostas que temo. Podíamos inventar uma ode marítima e fazer uma íntima navegação para lá de qualquer geografia, onde o anoitecer não fosse mais que uma ave poisada na sobretarde. Então, como sei que contigo me desperdiço, trato de me recolher ao húmus confortável da floresta, e como lagarta que enjeita a natural mutação, penetro na dulcificada letargia da sexta dimensão.
É que a mim mal me adapto, quanto mais a ti que te negas abandonar esse imprevisível reino onde governas, sem catavento e sem os deuses ancestrais do bom senso.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
A COMUNICAÇÃO DE GABRIEL (inédito)
entre o sonho, o sono e alegoria,
ouviu Maria a voz de Gabriel roçando-lhe o ouvido.
foi um zumbido, um cair tímido de folha outonal
mas o bastante para entender
que ela d´outro e d'ouro emprenharia.
o luar era quente,o vento arquejava
como se nascesse nas fornalhas do cataclismo.
teria ouvido mal? deveria acreditar na voz dos anjos?
afastou o sono das pálpebras,
atravessou a noite com uma vela na mão
e um pensamento a morder-lhe
a paz de mulher quotidiana e desambicionada.
que havia de pensar José?
seu marido era um velho indulgente,
com serrote, régua e golpe de vista punha a parca comida na mesa.
e sabia beijá-la, nela colocar os olhos de lento agradecimento.
quando a tomava em aconchegos de amor
fazia-o com a suave ternura a quem os muitos anos de vida
deram a sabedoria dos deuses.
Maria, com o desabrochar da claridade,
atirou-se ao chão em terra da árida Judeia
e implorou a Adonai, o deus da sua infância de judia,
que os seus sangues fêmeos não lhe faltassem na lua-cheia.
meses depois, suportando uma angustiada espera,
o sol brotou das suas entranhas como um forasteiro indesejado.
contudo, para a desabrigada,
o céu ensombrava-se com a mais negra negrura da mortificação.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
A MENTIRA DO POETA (inédito)
o poeta sente o que sente
e
sabe que mente
a dor de criar gera-se na mente
no minucioso esforço do olhar rente
o verso, sempre o verso,
bem mastigado, digerido a quente
poesia é isto
alegoria
espelho
memória alerta
a busca do obstinado rigor
a matar o poeta
lentamente
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
A EMPRENHADA
A EMPRENHADA
com aquelas dores que incendeiam os astros,
a mulher carregava em seu ventre
o escolhido.
e o burro caregava os dois
sua passada era mansa,
e fulgente o pó do caminho.
isto foi um pouco antes do do tempo
que o tempo só teria início
quando a emprenhada parisse numa gruta,
devastada pelas dores,
os sangues
o mijo.
depois do primogénito
outros nasceram
mas aquele primeiro
guardava-se no coração da mãe
como a esquiva chuva que cai na Judeia.
trinta e três anos após o início do tempo,
o escolhido pediu a ajuda ao pai
quando se viu pregado no madeiro.
e o silêncio sem resposta
era um grande monstro.
como entender que não tenha chamado
pela mãe?
o dia morria
e a tarde anunciava o crepúsculo de Deus.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
DEUS NO SAPATO (inédito)
aqui há gato
resmungou o poeta
incapaz de fechar o soneto.
e como sentia
a lírica enferrujada
libertou-se de Deus
que lhe apertava o sapato
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