terça-feira, 15 de março de 2016
O HOMICÍDIO DAS MÃES (inédito)
enquanto espero que surjas
com tuas mãos à descoberta de mim,
o meu olhar ilíquido trespassa do rio
a neblina,
nas águas amargas do Lima.
imóveis nos seus dóris,
é de pontiagudas fisgas acesas
que os corsários aguardam
a passagem das ofegantes lampreias,
prenhes de futuro e destino por fazer
e eu faço figas rigorosas
para o sucesso do fracasso
que há-de inscrever-se
na abordagem da pirataria.
continuo por aqui, nesta margem,
como se obedecesse a um dever primordial
(não há-de ser debalde a minha fé)
enquanto não chegas de sapatilhas apressadas.
na armadilha do rio,
o homicídio das mães.
sexta-feira, 11 de março de 2016
PERTO DO CORAÇÃO NAUFRAGADO (inédito)
PERTO DO CORAÇÃO NAUFRAGADO
( no dia internacional da mulher e dedicado à Virgínia Woolf)
Esperou que marido e filho acabassem de comer. Naquele dia tinha-se esmerado na preparação de um jantar festivo, consumira um bom par de horas, num rodopio labiríntico entre o forno, a varinha mágica e o liquidificador. Metera até uma falta no escritório para que a confecção do jantar tivesse o deslumbramento dos deuses. Aquele dia era também o seu dia.
Vi-os depois levantarem-se da mesa, o bolo comemorativo ainda mastigado à pressa, o filho direito ao quarto onde se embrenharia na atracção do portátil e o marido a preparar-se para ir até ao café. Nessa noite jogava a sua equipe de futebol e ele juntava-se ritualmente aos seus camaradas clubísticos numa exaltação de circo romano.
Sozinha, deitou os restos de comida no lixo - o que não era seu hábito, sempre cuidadosa nas poupanças -lavou a loiça, e sentou-se à mesa a fumar um cigarro. Um silêncio fúnebre envolveu-a e sentiu de novo aquele gélido arrepio de perturbação que há uns tempos lhe vinha mordendo o pensamento: "Que estava a fazer naquele lar?".
Já no quarto preparou uma pequena mala com a roupa essencial e produtos de higiene, e desandou porta fora sem olhar para trás ou sem um mínimo de remorso. Meteu-se num táxi que a deixou no outro lado na cidade num hotel de circunstância e medíocre, disfarçada com uns óculos escuros e o cabelo para os olhos.
Sentou-se na cama sem nunca despir a roupa que usava, lendo "Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf. Dias depois, tendo chegado ao fim da imperiosa leitura, partiu de comboio para Espanha, atravessou os Pirenéus e Mancha só parou em Inglaterra.
Só voltou ao lar trinta anos depois, quando soube que o seu único filho iria morrer de sida.terça-feira, 1 de março de 2016
A PALAVRA INAUGURADA (inédito)
A PALAVRA INAUGURADA
este deixou de ser o tempo da palavra.
denegriram-na os alquimistas da fala
com os seus discursos de estrelas liquefeitas.
traída a palavra nas bocas donde se soltam varejeiras
de azulado dorso, abro a tampa do poço
onde guardo os meus berlindes
e deixo a memória inaugurar a linguagem dos pássaros.
SALOMÉ (inédito)
SALOMÉ
é certo, Salomé, que pediste a minha cabeça numa bandeja, mas isso foi muito depois de te conhecer naquele primeiro orvalho do Inverno.
até aí, pela tua mão, teci a luz dos salmos,
por ti roubei o luar que afaga o piar dos pássaros sensatos no quadro da noite. fui chuva improvável no deserto das sombras, e insisto, por ti fui capaz de fazer lume para aquecer a indiferença dos altares.
mas também pela tua mão, Salomé,
conheci a fome que devora o rosto, a peste do medo,
as pústulas mais sórdidas da carne.
pela tua mão fui capaz de matar como velhas loucas de cabelos furiosos e facas em riste.
isto foi ontem, Salomé, quando pediste
a minha cabeça numa bandeja.
assim seja.
ao terceiro dia, a ressurreição.
a minha.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
A NATURAL MUTAÇÃO (inédito)
A NATURAL MUTAÇÃO
É-me difícil calcular a insubmissão da tua alma quando naqueles dias em que vestes de volúvel inquietude, traças um rumo que não entendo. O teu rumo é minha teia pois há perguntas que gostaria de te fazer e há prenúncios de respostas que temo. Podíamos inventar uma ode marítima e fazer uma íntima navegação para lá de qualquer geografia, onde o anoitecer não fosse mais que uma ave poisada na sobretarde. Então, como sei que contigo me desperdiço, trato de me recolher ao húmus confortável da floresta, e como lagarta que enjeita a natural mutação, penetro na dulcificada letargia da sexta dimensão.
É que a mim mal me adapto, quanto mais a ti que te negas abandonar esse imprevisível reino onde governas, sem catavento e sem os deuses ancestrais do bom senso.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
A COMUNICAÇÃO DE GABRIEL (inédito)
entre o sonho, o sono e alegoria,
ouviu Maria a voz de Gabriel roçando-lhe o ouvido.
foi um zumbido, um cair tímido de folha outonal
mas o bastante para entender
que ela d´outro e d'ouro emprenharia.
o luar era quente,o vento arquejava
como se nascesse nas fornalhas do cataclismo.
teria ouvido mal? deveria acreditar na voz dos anjos?
afastou o sono das pálpebras,
atravessou a noite com uma vela na mão
e um pensamento a morder-lhe
a paz de mulher quotidiana e desambicionada.
que havia de pensar José?
seu marido era um velho indulgente,
com serrote, régua e golpe de vista punha a parca comida na mesa.
e sabia beijá-la, nela colocar os olhos de lento agradecimento.
quando a tomava em aconchegos de amor
fazia-o com a suave ternura a quem os muitos anos de vida
deram a sabedoria dos deuses.
Maria, com o desabrochar da claridade,
atirou-se ao chão em terra da árida Judeia
e implorou a Adonai, o deus da sua infância de judia,
que os seus sangues fêmeos não lhe faltassem na lua-cheia.
meses depois, suportando uma angustiada espera,
o sol brotou das suas entranhas como um forasteiro indesejado.
contudo, para a desabrigada,
o céu ensombrava-se com a mais negra negrura da mortificação.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
A MENTIRA DO POETA (inédito)
o poeta sente o que sente
e
sabe que mente
a dor de criar gera-se na mente
no minucioso esforço do olhar rente
o verso, sempre o verso,
bem mastigado, digerido a quente
poesia é isto
alegoria
espelho
memória alerta
a busca do obstinado rigor
a matar o poeta
lentamente
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